Cuida

Quando a distância é (como sempre foi)
a pausa entre duas peles
desnuda por batidas descompassadas
paixão afinada

Cuida de um gesto simples
Bem devagar descobre, pois
De mim só descoberta será

Tantas mensagens sem voz, por
Vezes gritando seu nome
Eu quis uma passagem
Ficar além da sala e finalmente demorar
Solto pelo amor, namorar

Cuida depois de um gesto simples
Bem devagar deslizando nota por nota
De mim, agora, só ouvir, ouvir, ficar

O momento determina distância
A canção entrega a lembrança
O pensamento implora mais uma sala
Sala que acabo de entrar
Cuida bem de mim

Deslumbro

Deslumbro como amassaria os meus lençóis, a mim, como iria entregá-los.
 
E depois, fantasiado de realidade, cheiro os mesmos lençóis, você aroma… Eu? Derramado…
 
Olhando para o lado, universo intacto, alucino como acordaria de barriga para baixo, o rosto meio a vista, me fitando pela metade, o outro lado, escondido nas dobras de um tecido executado por nós.
 
Me fantasio, presencio a surpresa de um encontro tantas vezes marcado sem ao menos representar o que antes era… sem sentido, sem perfume, não, não, não…
 
Antes,
nem eu,
nem você.
 
Sabe-se lá por que agora, sabe-se lá…
 
Deslumbro, deslumbro, deslumbro. Ainda que esteja entre o encanto e o próximo encontro. Deslumbro! Sem pressa, sem anseio, certeiro que somos todos deslumbrados: Aroma! Encanto! Desejo!
 
Talvez por isso, duas noites, sóbrias depois, continuo a deslumbrar, o que foi derramado, ainda acordado!

por mais 1 ano

1 ano

passou

um ano

qualquer

mais

de novo

outro

e outro

girou

o mundo

de novo

um ano

novo?

mesmo?

só?

1 ano?

ninguém percebeu.

agora

agora não dá

não dá pra voltar

a vida

único ciclo

de sentido, único

só vai

agora

o mundo volta

e gira

por mais 1 ano.

O trago

Da fumaça da terra, as nuvens
Do brilho do sol, o acendedor

E nós na janela
Incompreendendo o mundo
Em nosso único trago
Não era amor

Em compasso junto aos tacs do relógio
Toda composição do ambiente
Sabia que aquilo não deveria ser admirado

O sofá, apertado
Só conseguia agüentar seu volume
Claro e decidido me empurrando para longe

Então, um instante
Previamente suspirado partiu
E enquanto ainda sentia em meus braços

A simples leveza pesou
Sobre um cansado amanhecer
E o deitar seguiu sem paixão

Os carinhos foram frios
E não tivemos nenhum
Cobertor de esperança
Que nos esquentaria

Os olhares foram nublados
E não houveram raios acessos
De compaixão que pudessem
Atravessar nossas nuvens de desilusão

Nada a declarar

Ao fundo tocava essa canção de Madeleine:

Como eu, você também sentiu como nossas peles ainda se atraem? Como deixamos isso acontecer? Semanas atrás sonhei. Sonho bom, desses de pura intensidade e poucas cenas para se saciar. Nada visual. Apenas sua pele quente, lisa e macia subindo e gravitacionando na minha, raspando nossos poros, nos fazendo… Nada a declarar. Que saudade de algo que não tivemos…

Lembra? Seu pescoço na minha boca e eu descendo pelos seus lados, suas curvas, a luz baixa, as pessoas fora da sala, a musica lenta que fizemos. Meus lábios rasgando seu pescoço tremulo ao me abraçar forte, e leve. Sei que lembra. Foi nossa bruta realidade.

E depois, a cada dia, uma nova forma, o mesmo brilho de pele que passa ao meu lado, com leves saltos de uma mulher cheia de desejos.
Fantasiamos! Por hora é o que há de melhor para entender.

É… Assim vamos seguir, apenas um momento único, real, outros tantos de ideal. Peles respirando um só prazer ao saber que tudo já passou, mas continuamos ricos de desejo. Mesmo que à distância, a sua pele respirando o desejo da minha. Ah, como quero viver enquanto só devemos ser fantasias de prazer.

Minhas mentiras sobre você

– Estou aqui lembrando aquele dia que te encontrei por certo acaso na rua, ao lado do seu trabalho na Paulista, lembra?

Enquanto eu do outro lado da rua via você caminhando atenciosa e calma com o mundo… Não aguentei, caminhei e te abracei… Te busquei para o meu lado, e enquanto parei meus olhos nos seus, fiz a vontade de falar, fato:

Teu olhar todo dia no meu olhar, lindo
Que todas tuas roupas te fazem, linda
Que és linda quando tropeça
E linda continua, quando ri de si mesma, e de mim

E metade do teu sorriso estático, é lindo
E és linda ao final do dia de trabalho
E és linda com o cabelo bagunçado entre os lençóis amassados pela manhã
Com teu beijo adormecido antes de um preguiçoso: Bom dia!

És linda até quando não te vejo
E quando ouço sua voz entusiasmada me dizendo que voltas a me ligar
E mesmo quando não ligas, continuas linda

E nos dias de tédio, nublado sem vida, tu és linda
E nas festas chatas sem nada que comemorar, se faz mais linda
E quando reclamas da vida? Tu és a mais linda a se queixar

Quer saber? Aqui em pé sob essa calçada
Tu és a mais linda, simples ao me olhar

E diante do dito, dos olhos, de um segundo em estatua, teu olhar me engole
E você me diz: – MENTIROSO!

E depois sorri, pula doida sobre mim, me beija e eu sinto tudo do jeitinho que você gostaria de me dizer…

Lembra?

Maduro Contínuo

Depois de maduro, desce, saindo de cena sem deixar que a cortina se feche. A espera do próximo ato, do próximo estágio. Revela então, a completa falta de ansiedade da platéia pelo desconhecido da noite antecedendo o inevitável: alvorada. Nova ruptura. Novo sabor. Novo viver. Amadurecendo repetidamente sem ninguém perceber.

De onde veio isso? Dessa simples janela: http://instagram.com/p/b4W4gPv0Qy/

Crônica do discurso amanhecido

Abriu os olhos. No susto, não sabia onde estava. Ouviu o locutor de voz aveludada e alegre celebrar o novo dia citando nobres palavras de motivação.

– Bom dia pra você que está acordando, lá vem mais um dia dessa linda semana de sol. Anime-se. – uma leve subida no volume da música ao fundo para então concluir:
– Como diria o sábio, caro ouvinte, se você está com preguiça de fazer alguma coisa, só há duas explicações para tal: ou você não sabe como fazer, ou pior, você não gosta de fazer. Então é melhor arrumar outro afazer para aliviar a semana. Uma bom dia para todos. E vamos para próxima canção… play!

Ouviu, piscou com leve demora os olhos e aconchegou-se no edredom. Ele adorava fazer isso. Então, sem perceber, fechou os olhos.

Como dizer?

Quando a lágrima é tamanha que preenche todo o olhar, deixando-o inundado sem querer transbordar.

Quando da lembrança vem um leve sorriso, completo, mesmo que de canto, mas logo sobreposto, surpreendido por contrações do mesmo rosto que te deixam sem saber o que mais pensar.

O que fazer quando a distância não é contada, não tem medidas. Quando o infinito engoliu o que era o finito da alma, e agora segue sem saber por onde encontrá-la.

O que fazer quando não se sabe qual raciocínio lhe conforta mais: o “só faz esse tantinho de tempo?”, ou o “já faz tanto tempo assim?”, pois não é saudável dizer se as lágrimas deixam o copo meio cheio ou meio vazio. Não há copo. E o vazio?

O vazio de uma alma finita, fechada, lacrada na pele, por uma alma infinita agarrada a todas as peles que se pode ter contato no tempo. Finito ao observar o infinito em qualquer pensamento distante, depois de cada lágrima que se deixa transbordar.

Como não dizer?
Como não dizer que agora saudade é o que realmente está espalhado pelo infinito de não saber como continuar sem a chance de secar esse rio que escorre da nascente finita da minha alma até o mar infinito da sua que nem sei quando, muito menos como alcançar.

Como dizer? Como escrever, sabendo que palavras são finitas ao triste fim de um ponto final. Enquanto sentimentos infinitos, do cheiro seu que sinto, enquanto escrevo infinitamente minhas saudades por você.